Saberes, Literaturas e Linguagens

8 02 2009

A Lusofonia nos seus mais variados aspectos linguísticos e culturais foi hoje debatida na Universidade do Minho, numa sessão semi-plenária do X Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Nesta sessão, moderada por Alfredo Cardoso (CMB), estiveram presentes os conferencistas Neusa Maria Bastos (PUC/SP) e José Carlos Venâncio (UBI). Os comentários finais foram tecidos por José Manuel Mendes, Presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores.

Num mundo em que os processos económicos têm conduzido a uma hegemonia de todo o tipo de produtos, Neusa Bastos acredita que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) pode oferecer resistência aos fluxos globalizadores, uma vez que o Espaço Lusófono só pode existir na medida em que o encaramos como um espaço de cultura e compreensão cultural. Ela afirma que “é necessário separar a Lusofonia da carga negativa que lhe está associada”, divorciando este conceito da noção do domínio de Portugal sobre os outros povos e países. No Espaço Lusófono não há uma ascendência de uns sobre outros, mas uma igualdade de situações, sendo que partilhamos a língua e certos elementos culturais e históricos, mas mantemos uma individualidade. Nas palavras de Helena Pires de Brito, citada pela oradora: “não somos os 200 milhões de falantes. Somos a língua portuguesa que fala em cada um de nós”. Assim Neusa Bastos interpreta a Lusofonia como um espaço de liberdade, uma vez que, apesar de não se poder negar a influência mútua de uns países na cultura dos outros, seja a nível da música, da escrita, da língua ou da própria gastronomia, cada país é individual. Afirma que a Lusofonia é um “Caldeirão Cultural”, onde se reproduzem, se alteram e se adaptam aspectos de outras culturas (pe. influência da música africana na música brasileira).

José Carlos Venâncio falou sobre diversas autobiografias, escritas por figuras ilustres da cultura e política africanas, como possuindo um sentido pedagógico, como sendo capazes de apontar caminhos às novas gerações para resolver crises e conflitos actuais. Se antes da independência estas autobiografias procuravam um despertar das consciências africanas contra a opressão do colonialismo que os privava dos seus direitos, hoje as perspectivas abordadas por autores como Muta Maathai (recipiente do Prémio Nobel da Paz em 2004) são outras, muito mais preocupadas com os direitos humanos nos países que conseguiram a independência e são agora destruídos por conflitos internos e lutas entre si. Assim, as preocupações destas personagens nas obras que retratam as suas vidas, são apreensões com elites corruptas, com racismo e desigualdade entre os géneros, com problemas ambientais e, fundamentalmente, com a falência dos Estados. O Professor Venâncio coloca aqui a questão: “será que se justificou socialmente a escrita destas autobiografias?”, será que as novas gerações vão tirar partido destas experiências?

“Da nossa Língua vê-se o mar”. É com esta adaptação da frase de Virgílio Ferreira que José Manuel Mendes abre o seu comentário, entendo aqui o mar como uma metáfora entrelaçadora, como um modo de dizer agregação. “o Espaço da Lusofonia tem de ser encarado como um espaço de autonomias, de pluralidade, mas também de aproximação, de interdependências livres e criativas”. ´´E assim que o escritor vê o que deve ser a CPLP, remetendo para o exemplo da conciliação de tendências na música, que já havia sido referia por Neusa Bastos. José Manuel Mendes afirma que o transcender de fronteiras ainda não parou, e é mais necessário pensar uma Lusofonia susceptível de manter esta inter-relação cultural do que uma relação política. Referiu-se também às autobiografias escritas por personalidades públicas como essenciais, uma vez que “esta multiplicidade de vozes é a inscrição do eu no espaço do outro”. Assim o percurso das suas vidas, contaminado pela história e pelo percurso cultural pode contaminar-nos também a nós que “também somos deste mundo, desta mundialização”.

Texto: Ana Santos Carlos





Dos problemas ambientais ao desenvolvimento sustentável

8 02 2009

O último dia do X Congresso Luso-Afro-Brasileiro abriu com um painel temático dedicado às questões ambientais. Especialistas provenientes de várias áreas do globo estiveram reunidos num dos auditórios da Universidade do Minho (UM) para discutir o conceito de desenvolvimento sustentável, abordando novas problemáticas e discutindo soluções para a crise ambiental.

O moderador, José Octávio Van Dunem, deu início à sessão apresentando Aspásia Camargo, investigadora brasileira da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Aspásia, especialista na questão do desenvolvimento sustentável, começou por definir esse conceito, alertando para a fulcralidade do combate aos problemas ambientais. Na sua opinião, o homem é “responsável pelo agravamento” desses problemas, pelo que é necessário estabelecer estratégias em que “sustentabilidade” é a palavra-chave. A oradora citou o seu país, o Brasil, como um exemplo em termos de legislação específica. “O Brasil tem a melhor legislação do mundo nesta área”, asseverou Aspásia, que, no entanto, acredita que os grandes problemas subsistem. Não faltou uma breve referência ao novo presidente norte-americano, Barack Obama. “Espera-se que seja um presidente atento às questões ambientais”, concluiu.

Brígida Rocha Brito foi a segunda oradora da manhã. A investigadora do Centro de Estudos Africanos do ISCTE direccionou a sua comunicação para os problemas do continente africano. Brígida confessa que o conceito de desenvolvimento sustentável é muito recente em África, e que as particularidades do continente apenas permitem pensar a “curto prazo”. Local de grande complexidade ambiental e multicultural, onde convivem diversos ecossistemas, é imperioso “impedir a proliferação dos problemas ambientais, como as catástrofes naturais”, defende Brígida. Recém-regressada da Guiné-Bissau, a investigadora afirmou que, no plano legal, o continente africano apresenta alguma “fragilidade”.

O Presidente do Cominté Nacional para a Mudança Global, Nelson Lourenço, foi o último a discursar. Na sua intervenção, salientou a dificuldade da obtenção de equilíbrio social, económico e ambiental e a preponderância de trabalhar multidisciplinarmente em busca de soluções. O autor apresentou a Metedologia de Análise de Dinâmicas Territoriais pela qual se rege o seu departamento e ofereceu vários exemplos de gestão sustentável em zonas um pouco por todo o mundo.

Por fim, o comentador Joaquim Gil Nave, do ISCTE, reforçou os principais pontos de cada intervenção. “Foram três comunicações muito bem elaboradas, com abordagens diferentes mas muitos traços convergentes”, afirmou.

Texto: Paulo Paulos





Investigadores discutem desigualdades de género

7 02 2009


“Sociedade e desigualdades de género” foi um dos temas que esteve em destaque, hoje, no X Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. A sessão teve como principal objectivo a explicação das razões que permanecem e que continuam a contribuir para a supremacia do homem perante a mulher no espaço lusófono, bem como no resto do mundo. A psicóloga e investigadora, Conceição Nogueira, afirmou que “a desigualdade entre homens e mulheres é um problema mundial que interessa mudar”.

A socióloga explicou de que forma os movimentos feministas poderiam contribuir para a diminuição de tais desigualdades. “A teoria do interseccionismo é a mais adoptada pelos movimentos feministas em busca da igualdade de género”, afirma Conceição Nogueira. Apesar de ser recente, esta teoria tem-se revelado eficaz, uma vez que se preocupa em considerar as vivências de cada mulher – mulheres que sofrem de racismo, que governam ou que oprimem outras. “Não se consegue compreender o género se não se compreender a complexidade de cada caso individual”, acrescenta.

A antropóloga Miriam Grossi, analisando as desigualdades de género no campo científico, destacou que as mulheres dos grandes cientistas, do final do século XIX e início do século XX, “tinham grande importância no desenvolvimento das pesquisas dos seus maridos”. De acordo com a docente, o papel da mulher no desenvolvimento científico era preponderante, no entanto o facto de viverem na “sombra” dos seus cônjuges impedia-lhes tal distinção.

“Homem é Homem, Mulher é sapo”

A investigadora e docente da Universidade Agostinho Neto, Rosa Melo, analisou ao longo da sua intervenção as desigualdades de género em África. A oradora referiu que “para além de serem maltratadas, as mulheres também são seres que podem ser comprados e vendidos”.

Inúmeros investigadores, motivados pelo estudo desta tendência, têm tornado este assunto alvo de grande discussão no continente. Em Angola, “nunca se falou tanto no género como hoje”, afirmou Rosa Melo. O que torna o problema tão grave são os próprios políticos africanos que, apesar de se assumirem “de igual para igual com as mulheres, não o põem em prática”, acrescenta.

A investigadora brasileira mostra-se, no entanto, mais optimista quando vê as mulheres africanas cada vez mais cientes das injustiças que as rodeiam. 

Texto: Bruno Tomé





Jantar junta duzentos congressistas

7 02 2009

O restaurante Panorâmico da UMinho acolheu, ontem, o jantar do X Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. O encontro contou com a presença de cerca de 200 convidados que acentuaram um forte espírito de convívio.

Para animar os vários congressistas, estiveram presentes vários grupos de animação, nomeadamente o grupo Ginga Capoeira, o grupo de precursão Bomboémia, a Tuna Azeituna, o Grupo Etnográfico do Baixo Minho – Rusga de São Vicente – e o artista português Dino Freitas. As apresentações patentearam as diferenças culturais dos países lusófonos, integrando-se, também, dentro das temáticas do Congresso.

VOX POP
1. Qual a sua opinião acerca do Congresso, até ao momento?
2. Está a gostar da estadia em Braga?

Da esquerda para a direita

Da esquerda para a direita: Aquiles Burlamaqui, Regina Andrade, Eurites Monteiro, Eduardo Silva, José Reis Santos e João Oliveira

Nome: Aquiles Burlamaqui
Profissão: Docente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Nacionalidade: Brasileira

1- Estou a gostar muito do Congresso por estar a ter um maior contacto com a cultura portuguesa e por ver as semelhanças e também as diferenças com o Brasil, o que é interessante.

2- Relativamente à estadia em Braga, estou a gostar apesar do frio porque não estou habituado


Nome:
Regina Andrade
Profissão: Docente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Nacionalidade: Brasileira

1-  Gostei muito do Congresso. É a primeira vez que venho e como psicóloga social é interessante debater estas questões com os colegas de sociologia.

2- É a segunda vez que estou em Braga e adoro a região. Sempre tive uma boa ligação com Portugal.


Nome:
Eurites Monteiro
Profissão: Doutoranda no Centro de Estudos Sociais de Coimbra
Nacionalidade: Cabo-verdiana

1-  Apesar de alguns contratempos, o Congresso tem sido muito positivo. É necessário redefinir alguns olhares sobre as relações entre os países lusófonos.

2- É a primeira vez que estou em Braga. Quero voltar para conhecer melhor a região.


Nome:
Eduardo Silva
Profissão: Conselheiro da Embaixada de Cabo Verde em Lisboa
Nacionalidade: Cabo-verdiana

1-  Foi um prazer enorme assistir ao Congresso até porque assisti a algumas comunicações que foram uma novidade para mim. É um êxito absoluto e espero que, futuramente, Cabo Verde venha a acolher este evento marcante.

2- O meu trabalho exige deslocações a Braga com alguma frequência.O único problema desta cidade é a chuva.


Nome:
José Reis Santos
Profissão: Docente da Universidade Nova de Lisboa
Nacionalidade: Portuguesa

1- É essencial que estes acontecimentos existam para que haja um futuro das ciências sociais. A Universidade do Minho está de parabéns por ter acolhido um Congresso desta importância.

2- Já conhecia Braga antes de participar no Congresso até porque a cidade é um ponto de referência a nível regional.


Nome:
João Oliveira
Profissão: Investigador em estudos de género e teoria feminista do Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa
Nacionalidade: Portuguesa

1- Estou a gostar da possibilidade de intercâmbio que o Congresso oferece entre estes países e da oportunidade de se apresentarem novos trabalhos.

Entrevista: Helena Nunes





Oradores discutem influência da cidade nas sociedades actuais

7 02 2009

Na prossecução do objectivo do X Congresso Luso-Afro-Brasileiro, decorreu, ontem, mais um painel temático, subordinado à temática “Sociedade, Urbanismo e Políticas Culturais”. A conferência teve como intuito cruzar as diversas problemáticas inerentes à vida urbana contemporânea.

A temática explorada contou com um representante de cada vértice do triângulo Luso-Afro-Brasileiro, nomeadamente os sociólogos Irlys Barreira, José Machado Pais e Carlos Fortuna e o Ministro da Cultura, em Cabo Verde, Manuel Veiga.

Irlys Barreiro apresentou um estudo, intitulado Cidade, Memória e Património, que serviu de cerne para guiar a sua intervenção. Com base em exemplos pragmáticos, a oradora explicou que o bairro de Eracema, em São Paulo, e o Bairro da Alfama, em Lisboa, funcionam “como uma espécie de metonímias”, de ícones, que representam as respectivas cidades.

Propôs, ainda, uma reflexão acerca das narrativas urbanas, invocando para esse efeito Walter Benjamin. É necessário combater a degradação provocada pelo ritmo consumista e fluxos fluentes de turistas, explica a socióloga, que associa os moradores a “ilhas de identidade”.

O sociólogo José Machado Pais iniciou a sua intervenção, expondo a problemática da falta de tempo associada à vida nas cidades. Não dispondo do tempo necessário para cumprir as tarefas diárias, os indivíduos, que vivem em metrópoles, estão sujeitos à “ideia de fuga”, explica José Machado Pais. Assim, o meio urbano acaba por ter uma grande influência nas sociedades actuais.

De acordo com o Ministro da Cultura, o meio urbano é agora um “modelo cultural engolido pelas imagens publicitárias”. Manuel Veiga criticou, ainda, as políticas implementadas nesse campo que, para ele, são mal sucedidas.

Texto: Andreia Mandim





Michel Wieviorka presente no encerramento do Congresso

7 02 2009
O sociólogo francês, mundialmente reconhecido, vai encerrar esta décima edição do Congresso Luso-Afro-Brasileiro

O sociólogo francês, mundialmente reconhecido, vai encerrar esta décima edição do Congresso Luso-Afro-Brasileiro

Michel Wieviorka vai estar presente hoje no X Congresso Luso-Afro-Brasileiro na Sessão de Encerramento, às 16 horas, juntamente com o vice-reitor da Universidade do Minho Manuel Mota, o presidente da Associação Portuguesa de Sociologia Luís Baptista, Ramon Maíz, Engrácia Leandro e João Sentieiro.

Wieviorka é um sociólogo francês mundialmente reconhecido e muito célebre pela sua especialidade em violência, terrorismo, racismo, movimentos sociais, inseguranças e diferenças sociais. Doutorado em Etat ès Lettres et Sciences Humaines e docente na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), o orador convidado dirige ainda o Centre d’Analyse et d’Intervention Sociologiques (CADIS) que, pertencente à mesma instituição, foi fundado por Alain Touraine, em 1981.

O seu percurso profissional é ainda mais extenso, sendo que também faz parte do comité de redacção revistas conceituadas, nomeadamente Journal of Ethnic and Migration Studies, Ethnic and Racial Studies, Critical Horizons e French Politics, Culture and Society. Dirige ainda, em conjunto com Georges Balandier, a publicação Cahiers Internationaux de Sociologie.

Em 2005, o francês foi alvo de referência na comunicação social internacional, sendo reconhecido como um especialista na agitação social que ocorria em França. No ano seguinte, Michel Wieviorka voltou a ser distinguido durante um Congresso de Sociologia, em Durban, onde foi eleito presidente da Associação Internacional de Sociologia (AIS).

Muitas das suas obras foram traduzidas para várias línguas, sendo de algum destaque as seguintes: Terrorisme à la Une (com Dominique Wolton) (1987); L’espace du racisme (1991); Violence en France (1992); La France Raciste (1999); La Différence (2002) e Neuf Leçons de Sociologie (2008).


Texto: Pedro Nogueira





Reportagem do 3º dia do Congresso

7 02 2009

 

Reportagem:

Cidália Barros
Francisca Fidalgo
Ricardino Pedro